Vol. 1 nº 7 agosto/2014

Acompanhamento Terapêutico e Psicanálise

Vol. 1 nº 7 agosto/2014

Acompanhamento Terapêutico e Psicanálise


Temática

Travessias como acompanhante terapêutica

Giovanna Carvalho de Oliveira

O Projeto AT – Acompanhamento Terapêutico, do hospital psiquiátrico São Pedro, é campo de estágio da residência [1] em Saúde Mental Coletiva da Escola de Saúde Pública – RS. O projeto experimenta a clínica do acompanhamento terapêutico [2] como ferramenta no processo de desinstitucionalização de seus moradores.

Proponho-me a narrar minhas vivências, traduzidas em experiências, da trajetória de residente e acompanhante terapêutica, neste cenário. Para Larrosa, “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca” (2002, p. 21). O sujeito da experiência é aquele que se expõe ao buscar novas possibilidades. Não há compromisso informativo, mas um exercício ficcional. As histórias contadas foram vividas e significadas de múltiplos modos, não esgotados nesse ensaio. Os nomes utilizados foram inventados por mim. Evita-se a explicação dos fatos, para provocar a abertura de sentidos.

Maria

O primeiro dia no hospital foi de ambientação. Finalmente, consegui compreender o significado de frases ouvidas no percurso da residência, como: “a instituição atravessa os corpos dos moradores”. Uma residente me acompanhou nessa etapa, e seu primeiro conselho para sobreviver naquele espaço foi: “tá vendo aquela senhora? Passa longe, não deixa ela te pegar, por que se isso acontecer, ela não te solta mais”.

Conselho escutado e guardado. Segui minha rotina, reproduzindo mais uma fala sobre uma pessoa, que se tornou verdade naturalizada, absoluta e inquestionável. A pessoa alvo do conselho era uma senhora negra, de cabelos curtos, grisalhos, que adora charutos, cigarrinhos, Pepsi-cola e galinha.

Ela vivia pelo pátio do manicômio, correndo atrás de quem passava e pedindo “um real”. Quando tinha oportunidade, agarrava o braço da pessoa e repetia seguidas vezes: “me dá um real, me dá um real”. Enfim, muitas das pessoas que passavam por ela acabavam vencidas pelo cansaço e atendiam ao pedido.

O conselho era seguido como prescrição médica: eu chegava no pátio, olhava onde Maria estava e traçava meu caminho no sentido oposto. Porém, essa atitude me incomodou. Eu estava em um projeto que tinha como objetivo trabalhar a desinstitucionalização dos moradores, oferecer ou criar possibilidades de relação e enlace social e fugiria daquela situação? Deixei Maria me pegar. Ela dizia: “me dá um real”. Eu respondia: “não tenho”. Então, ela apertava minha mão e respondia: “tem sim, tem sim”. A cena durou alguns minutos e aproveitei a distração dela com outra pessoa para fugir.

Esta cena marcou e repercutiu em mim. Conversando com outra residente, decidimos sustentar encontros com tal moradora. Deixávamo-nos ser pegas. Maria segurava firme no braço ou na mão e cada vez que

pedia um real, respondíamos e fazíamos outra pergunta, tentando enlaces pela palavra.

Essa cena se repetiu inúmeras vezes. Em algumas situações foi preciso marcar um limite, dizer a Maria que ela não poderia apertar tanto o braço, que isso poderia nos machucar, que não iríamos embora e que ela poderia segurar nossa mão.

Maria falou do café da manhã, do pai, do irmão, do seu esmalte que ela gostava, “vermelho encarnado” como meu cabelo.

Comecei a narrar meus encontros com ela durante o horário das preceptorias e percebi o quanto foi importante tal movimento quando uma trabalhadora me disse que havia se aproximado de Maria por ter escutado minhas narrativas. Então, entendi a relevância de compartilhar algumas situações e olhares sobre determinado sujeito com a equipe, como possibilidade de reinventar olhares sobre a pessoa e se relacionar de outras maneiras.

Lúcia

Lúcia é do interior do estado, foi encaminhada ao setor de internação após um episódio de sintomas psicóticos com delírios persecutórios. Segundo relatos de trabalhadores, depois da alta hospitalar, a equipe realizou tentativas de contato com a família com o objetivo de encaminhar seu retorno à cidade de origem. Porém, os familiares recusaram-se a recebê-la, caracterizando abandono familiar.

Com a indicação de AT, realizei uma reunião com a enfermeira. Esta me contou que Lúcia morava na unidade há 18 anos, tinha autonomia, trabalhava na reabilitação, possuía autorização para sair sozinha e era cuidadora de uma moradora acamada. O desafio era justamente perceber que Lúcia poderia estar em um residencial terapêutico, mas se recusava a realizar tal mudança.

No primeiro encontro, deparei-me com Lúcia na entrada da unidade. Ela foi direta: “tá procurando quem?” Apresentei-me, disse que estava conhecendo a unidade e, então, Lúcia foi minha anfitriã, mostrando e explicando o funcionamento do espaço. Ao apresentar seu quarto, disse: “esse é meu quarto, o São Pedro tá fechando. Mas, eu não vou sair daqui, eu vou ser a última”. Não queria perder a oportunidade: “tá fechando? Mas se tá fechando, talvez a gente precise entender melhor, saber para onde as pessoas estão indo e depois decidir”.

Fiquei surpresa com Lúcia. Sua comunicação, autonomia e gerência sobre seu dinheiro e seu trabalho eram impressionantes, o que tornava sua institucionalização ainda mais absurda. Lúcia não recebia nenhum tipo de beneficio, porque médicos peritos a consideraram apta ao trabalho. Porém, descobri, posteriormente, que Lúcia havia sido interditada judicialmente numa tentativa de facilitar a aprovação do beneficio reafirmando o lugar da doença, o que não se realizou.

Comecei a perceber que tudo que havia lido sobre AT referia-se ao cuidado de pessoas não institucionalizadas, usuários de serviços substitutivos, que estavam na vida, no espaço social, com dificuldades, mas com desejo de superar essas questões. Nessa situação, como eu poderia usar o AT para desinstitucionalizar? Como criar o desejo de saída em quem não tem, para quem se recusa a sair?

A angústia de sustentar essa posição permaneceu durante muito tempo, o eterno questionar sobre qual era meu lugar nessa relação, a dificuldade em me distanciar do núcleo da psicologia e me expor no espaço da cidade. Apostei que a única maneira de criar um desejo de saída em Lúcia era estar ao seu lado e circular o máximo possível, por diferentes lugares, chamando sua atenção para diversas situações, tentando resgatar suas memórias e escutando-a narrar sua trajetória. Aposta e expectativa de que circular pudesse resgatar a ideia de uma vida fora da instituição ou gerar um estranhamento de como o viver naquele espaço era bizarro. Demonstrar meu estranhamento diante das situações vividas dentro do hospício seria indução e manipulação? Ou seria uma possibilidade de ampliar os modos de se estar no mundo? Um exemplo disso foi a conversa sobre o banho. Como todos os pacientes tomavam banho no inicio da manhã, perguntei sobre essa rotina: “todo mundo toma banho às 07 horas, por quê? Eu tomo banho antes de dormir, e antes de vir morar aqui, como você tomava banho?”

Circulamos pela cidade: fomos à feira do livro, andamos de trem até Novo Hamburgo, conhecemos a Arena do Grêmio, fizemos seu cartão Tri, andamos pelo parque Redenção, visitamos Igrejas, conhecemos a rodoviária, fomos conhecer a casa que se tornaria residencial terapêutico e ali imaginamos qual quarto poderia ser o seu.

Com a data da mudança confirmada, Lúcia ficou agitada e não queria conversar. Ocorriam assembleias na unidade, mas eu decidi me afastar desse espaço. Era muita informação para ela e o único movimento que fiz foi dizer: “Lúcia, você conhece a casa, sabe da mudança, o que tenho a dizer é que vou seguir te acompanhando qualquer que seja tua escolha”.

Depois de uma assembleia, Lúcia me contou que iria se mudar. Ouvi relatos de outros trabalhadores, que afirmavam que no dia da mudança a casa estava bem desorganizada. Parte da equipe queria voltar para passar a noite no hospital, outra queria permanecer e arrumar a casa. O impasse permaneceu até Lúcia se manifestar dizendo: “dá para ficar sim, não vou voltar”.

Nessa nova fase, fomos explorar o bairro e abrir a conta no banco para o benefício “De volta para Casa”. Ela aprendeu a usar o cartão da conta e no primeiro pagamento Lúcia comeu uma torta de morango “gigantesca”, comprou uma sombrinha e um sutiã. Só tivera um sutiã durante esse tempo vivido no hospital, mas foi perdido quando o colocou para lavar.

Lúcia está bem, se apropriando da casa, do território e convivendo com a pessoa com a qual tem vínculo. Às vezes, ela fala em voltar à cidade de origem. Permanece a necessidade do processo de desinterdição judicial.

Antônio

Outro acompanhado foi Antônio: um senhor de 63 anos que está há 30 anos no hospital, por abandono social. A equipe relata que Antônio foi levado ao hospital pela Brigada Militar, depois de ter sido abandonado por uma tia, após falecimento de sua mãe. Quando iniciei o AT, era bem comum encontrá-lo deitado, com as pernas encolhidas, numa posição fetal. Vários acompanhamentos foram no banco em frente à unidade de moradia, com ele deitado, fazendo somente um movimento para olhar se eu estava ali. Talvez tenha sido a parte mais difícil, uma sensação quase insuportável de que o tempo não passava, enquanto outros moradores me abordavam. No começo, tentava dar atenção para esses moradores, mas foi impossível sustentar isso por muito tempo. Aos poucos, este senhor começou a interagir mais comigo, começamos a sair para andar no centro da cidade, tomar café, almoçar, ir ao cinema.

No passado, Antônio havia morado em um residencial terapêutico. Pegar ônibus e circular pelo centro da cidade, conversando, pedindo dinheiro ou fazendo alguns biscates era sua rotina. Porém, ele começou a fazer uso de bebida alcoólica e a solução encontrada foi colocá-lo de volta em uma moradia do hospital. Alguns diziam que o uso de bebida era como um happy hour após um dia de trabalho, outros diziam que vizinhos davam bebida para Antônio com o objetivo de facilitar o roubo de seu dinheiro.

Hoje, dois desejos aparecem em Antônio: tomar cerveja e ficar com seu dinheiro.

A potência das travessias

Estar como acompanhante terapêutica fez emergir várias questões. O AT é uma clínica sem muros, sem horário definido, sem a proteção das paredes do consultório ou do serviço de saúde, desafiando várias complexidades da relação. Acompanhar o sujeito no seu circular pelo território urbano, no encontro com pessoas, lugares, cheiros, situações, lembranças, desejos. Vivenciando uma multiplicidade de situações na aposta de produzir outras subjetividades e modos de estar no social. Porém, exigindo de mim um intenso movimento de desconstrução: qual minha posição nessa relação? Eu interpreto algo? O quanto posso emprestar meu desejo para essa pessoa? E emprestar não é induzir ou manipular? O quanto posso compartilhar algo com o acompanhante? E as situações da cidade? A Brigada abordando alguém, uma pessoa dormindo na rua, uma criança pedindo dinheiro?

As histórias não se encerram, não há desfechos, mas sim a produção de visibilidade, através da narração, da potência do Acompanhamento Terapêutico como dispositivo de desinstitucionalização dos moradores do hospital psiquiátrico e de produção de subjetividades.


Referências Bibliográficas

BONDIA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência.Rev. Bras. Educ., Rio de Janeiro , n. 19, Apr. 2002 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141324782002000100003&lng=en&nrm=iso>.accesson 01 Aug. 2014. http://dx.doi.org/10.1590/S14132478200000100003.

PALOMBINI LIMA, A. et al. Acompanhamento terapêutico na rede pública: a clínica em movimento. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2ª edição, 2008.

 

[1] Residências em saúde: são programas de pós-graduação em modalidade lato-sensu e possuem uma carga horária superior a 5.000 horas de formação prática e teórica, durante a qual o residente se insere no SUS por um período de dois anos, com a cooperação e a orientação de trabalhadores desses espaços, além da vivência e da pesquisa em saúde.

[2] Palombini (2008) define acompanhamento terapêutico como uma clínica em movimento, na medida em que possibilita acompanhar o sujeito na sua circulação pela cidade, colocando-se como alternativa para a construção de um espaço transicional, uma zona de intermediação entre a referência institucional para esse sujeito e seu acesso à via e aos lugares públicos (p.17).





agosto de 2014 - Correio APPOA