
Foi Richard Von Krafft-Ebbing, um dos fundadores da sexologia, em 1886, quem nomeou de sadismo e masoquismo o desejo de causar dor no objeto sexual, e seu inverso. A forma ativa e passiva, sadismo e masoquismo respectivamente, promovem o prazer sob qualquer forma de humilhação ou sujeição.
Segundo Freud (1905), o sadismo se caracteriza por uma atitude ativa ou violenta para com o objeto sexual e também por uma satisfação que se condiciona à humilhação e aos maus tratos do objeto.
O termo sadismo foi forjado a partir do nome do escritor francês Donatien Alphonse François, marquês de Sade (1740-1814), para designar uma perversão sexual – pancada, flagelações, humilhações físicas e morais, baseada num modo de satisfação ligado ao sofrimento imposto ao outro.
Já o termo masoquismo foi também criado pelo mesmo autor do sadismo, e firmado a partir do escritor austríaco Leopold Von Sacher-Masoch (1835-1895) para designar uma perversão sexual – fustigação, flagelação, humilhação física e moral em que a satisfação provém do sofrimento vivido e expresso pelo sujeito em estado de humilhação (Roudinesco e Plon, 1998, p.501). Para Freud (1905), o masoquismo compreende as atitudes passivas em relação à vida e ao objeto sexual, cuja satisfação se condiciona ao sofrimento com dor física ou psíquica causadas pelo objeto sexual. O masoquismo, enquanto perversão está mais distante do objetivo sexual normal, porque pode surgir como uma transformação do sadismo. “Um sádico é sempre ao mesmo tempo um masoquista” (p.161). Pode-se pensar que seja uma extensão do sadismo voltada para o próprio sujeito. O sadismo e o masoquismo ocupam posição especial entre as perversões, mas o que é mais notável é que sua forma ativa e passiva possa coexistir no mesmo sujeito. Uma pessoa que sente prazer em produzir dor no outro numa relação sexual é também capaz de gozar quando a dor é imposta a ela própria.
Retomado por Freud, a partir de 1896 o termo perversão foi definitivamente adotado como conceito pela psicanálise, que conservou a ideia de desvio sexual em relação a uma norma. “Não obstante, nessa nova acepção, o conceito é desprovido de qualquer conotação pejorativa ou valorizadora e se inscreve, juntamente com a psicose e a neurose, numa estrutura tripartite” (Roudinesco e Plon, 1998, p.584). O termo perversão abrange um campo muito amplo, na medida em que os comportamentos, as práticas e fantasias que ele abrange só podem ser apreendidos em relação a uma norma social que induza a uma norma jurídica. Da mesma forma, esteve sempre associada a várias formas de arte erótica no Oriente e no Ocidente, dando margem a inúmeras variações nas mais diferentes épocas e culturas.
Freud foi avançando passo a passo na definição da perversão. Em 1905, nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, se referindo ao fetiche dizia que o que se coloca em lugar do objeto sexual é alguma parte do corpo (pé, cabelo, ou alguma peça do vestuário). Por outro lado, referiu no mesmo texto que “Nenhuma pessoa sadia, ao que parece, pode deixar de adicionar alguma coisa capaz de ser chamada de perversa ao objetivo sexual normal” (p. 163).
Um pouco antes, neste mesmo texto, ao falar sobre o fetichismo, ressalta que certo grau de fetichismo está presente no amor normal e que “a situação só se torna patológica quando o anseio pelo fetiche passa além do ponto em que é meramente uma condição necessária ligada ao objeto sexual e efetivamente toma o lugar do objetivo normal” (p. 155), bem como quando o fetiche se transforma no único objeto sexual.
Avançando para 1927, no texto ‘’O Fetichismo’’ Freud enuncia que o fetiche é um substituto para o pênis, não para qualquer pênis ocasional, mas para um muito especial. O fetiche “é um substituto do pênis da mulher (da mãe) em que o menininho outrora acreditou e que por razões que nos são familiares – não deseja abandonar” (p.180).
Na verdade, o menino não quis acreditar que a mulher não tem pênis, pois se uma mulher tivesse sido castrada, ele correria o risco de perder seu pênis também. Na sua mente a mulher teve um pênis, mas esse não é mais o mesmo de antes. Outra coisa tomou o seu lugar, passou a ser seu substituto e como consequência, teria herdado o interesse dirigido ao objeto anterior.
Poderíamos dizer que o fetiche promove de certa maneira um triunfo sobre a ameaça de castração e uma proteção contra ela. Ele “também salva o fetichista de se tornar homossexual, dotando as mulheres da característica que as torna toleráveis como objetos sexuais” (p.181). O fetichista pode desfrutar ainda de outra vantagem de seu substituto de um órgão genital. O significado do fetiche não é conhecido por outras pessoas, desta forma não lhe é retirado; é facilmente acessível e pode conseguir a satisfação sexual ligada a ele.
O mecanismo princeps da perversão é nomeado por Freud de Verleugnung, (recusa ou renegação). A perversão é renegar a diferença sexual: “todas as mulheres têm o falo”. “Reconhecimento de que a mãe não tem o falo e negação desse reconhecimento: a mãe o tem pelo fetiche como falo deslocado” (Julien, 2002, p. 107).
Lacan, no Seminário "A relação de objeto", afirma que os dois textos mais importantes de Freud sobre o fetichismo são: 1) o parágrafo sobre o fetichismo nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” e 2) o artigo “O fetichismo”. Diz também que o fetichismo é uma perversão, e não uma neurose. Começa sua exposição afirmando que o fetiche é um símbolo, quase colocado em pé de igualdade com qualquer sintoma neurótico. Introduz a dupla função do véu ou da cortina, ou seja, “aquilo que está mais além, como falta, tende a se realizar como imagem” (1956-57 p.157). Dizendo de outra forma, o véu é o que esconde e ao mesmo tempo o que mostra. Esconde e mostra exatamente o quê?
(Figura 1: Esquema do Véu)

Neste esquema “estão o sujeito e o objeto, e este mais além que é nada, ou ainda o símbolo, ou ainda o falo na medida em que falta à mulher” (p. 158). Quando se coloca a cortina, sobre ela se pode pintar alguma coisa que diz que o objeto está além. O objeto passa a assumir o lugar da falta e ser o suporte do amor, mas não agarra o desejo. O que agarra o desejo é o objeto valorizado como ilusório.
Dessa maneira ocorre o splitting do ego, pois para Lacan, quando se trata do fetiche, a castração da mulher é ali ao mesmo tempo afirmada e negada. A função do fetiche seria mostrar que ela não perdeu o falo, mas ao mesmo tempo pode-se fazê-la perdê-lo, ou seja, castrá-la. Esta é a ambiguidade da relação com o fetiche, sempre constante e manifesta nos sintomas. Trata-se de uma relação vivida numa corda bamba, com equilíbrio frágil e muita ilusão, a do fetichista com seu objeto, estando a cada instante propenso ao fechamento ou abertura da cortina.
Sobre o Marquês de Sade
Sade foi um escritor libertino, dramaturgo e filósofo francês, cuja obra foi marcada pela pornografia e pelo desprezo moral. Nasceu no palácio de La Coste, em Paris no dia 2 de junho de 1740. Filho do Conde de Sade Jean Baptiste François Joseph e de Marie Eleonore de Mailé de Carman, Sade conviveu na infância com um pai libertino devasso e sodomita, gostando tanto de meninas como de meninos, e uma mãe que o entregou bem jovem à amante de seu pai. Aos cinco anos, não manifestava afeto ou culpa, infligindo todo tipo de violência às outras crianças. Foi enviado pelo pai para a comunidade de Saumane, na Provence, onde foi recebido com mimos e tratado como um Jesus, o que ajudou a fomentar sua arrogância.
Depois disso, ficou sob a tutela do tio, Paul Aldonce de Sade, abade libertino, apaixonado pela flagelação e a pornografia, e vivendo em companhia de duas mulheres (uma mulher e sua filha), das quais dispunha à vontade. Confiou a educação de Sade a um preceptor. Com dez anos ingressou no Colégio jesuíta Lycée Louis-le-Grand em Paris. O ensino que recebeu era acompanhado de referências à arte teatral, mas também castigos corporais.
Aos quinze anos, torna-se subtenente na infantaria do rei, aos dezessete, capitão da cavalaria, e toma parte na Guerra dos Sete Anos. Aos 23 anos casa-se com Renée Pélagie, uma jovem rica e burguesa (filha de Marie Pélagie de Montreuil, apelidada de Presidenta) e apesar de sua vida aventureira, tem dois filhos e uma filha. Cinco meses depois do casamento, é preso por libertinagem, blasfêmias, profanação da imagem de Cristo. A mulher o ajuda e sustenta, só vindo a se divorciar em 1790, mas sua sogra, a presidenta de Montreuil, se torna sua inimiga e lhe nega ajuda financeira.
Em 1768, leva uma pedinte, Rose Keller, à casinha que mantém para encontros em Paris. Encerra-a num quarto e a submete a flagelações, mas ela escapa e presta queixa. Sade fica alguns meses preso e é condenado a uma retratação. Em 27 de junho de 1772, de passagem por Marselha, visita o quarto de quatro profissionais onde promove uma orgia com flagelações, juntamente com o criado Latour que o sodomiza enquanto ele se serve de uma moça, que come bombons com cantárida, usados como afrodisíaco. À noite, vai a outra profissional, que come todos os bombons que Sade lhe oferece. Tem vômitos e sente-se envenenada, a polícia é comunicada desses acontecimentos.
O marquês consegue escapar para Itália na madrugada seguinte com a cunhada, que apresenta como esposa. O Tribunal da Provença condena-o por envenenamento e sodomia. Depois disso, é preso várias vezes, foge outras várias e é acusado do desaparecimento de pessoas. Em fevereiro de 1777, passando por Paris, é encerrado em Vincennes, a pedido da sogra. Em junho do ano seguinte é levado para Aix, onde a sentença de morte é anulada pela inexistência do envenenamento. Fica judicialmente livre, mas não pelo rei. Volta para seu castelo para se recuperar e firma-se como escritor, compondo várias obras como "120 dias de Sodoma", “Alina e Valcourt", a primeira Justine, vários contos. Perde o bom aspecto, o cabelo branqueia, engorda.
Julgado por louco, é transferido para o hospício de Charenton em 2 de julho de 1789. Doze dias mais tarde, sua cela é saqueada e seus escritos desaparecem. Sade nunca mais os veria, sendopublicados pela primeira vez em 1904, pelo psiquiatra e sexólogo alemão Iwan Bloch.
Em 1793 volta a ser preso e em 1794 é solto. Volta a ser confinado em 1801, pela polícia de Napoleão, como autor de Justine[1] e de Juliette[2]. Levado para o hospício de Charenton, o diretor permite que organize representações teatrais. Falece a 2 de dezembro de 1814 e nenhum nome é gravado em sua lápide, por decisão da família.

Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. “Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” in Vol. VII da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro, Imago Editora Ltda, 1980.
FREUD, Sigmund. “O Fetichismo” in Vol. XXI da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro, Imago Editora Ltda, 1980.
JULIEN, Philippe. “Psicose, perversão, neurose”. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2002.
LACAN, Jacques. O Seminário livro 4 “A relação de objeto”, Rio de Janeiro: , Jorge Zahar Ed., 1995.
ROUDINESCO, Elisabeth. “A parte obscura de nós mesmos” Uma história dos perversos, Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
ROUDINESCO, Elisabeth; e PLON, Michel “Dicionário de Psicanálise'', Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
SADE, Donatien Alphonse François, Marquês de, 1740-1814,” O marido complacente”,Porto Alegre: L&PM, 2014.
http://obrascompletasenpdf.blogspot.com.br/2016/12/obras-completas-del-marques-de-sade-en.html
[1]Justine o los infortunios de la virtud (1791).
[2] Juliette o las prosperidades del vicio (1797–1801).
Silvia Carcuchinski Teixeira é psicanalista, membro da APPOA.
março de 2018 - Correio APPOA