Vol. 12 nº 5 junho/2025

Jornada do Percurso XVII/2 - O que resta quando tudo se vai?

Vol. 12 nº 5 junho/2025

Jornada do Percurso XVII/2 - O que resta quando tudo se vai?


Temática

Um teto todo céu: breve história das três Marias

Jéssica Pozzebon

Rosa Montero (2024, p. 12) diz: “A gente sempre escreve contra a morte”.

De pequena até agora, há um mistério que me acompanha. Atordoava meus pais, amigos, familiares e professores com a mesma questão sobre o que resta. O diálogo era mais ou menos assim – sempre o mesmo, repetido, frustrante:

– Tira do planeta as árvores, as pessoas, os prédios, as cidades. Tira os rios, os mares, todas plantações e ruas. O que fica?

– Uma bola, o planeta de pura terra.

– Tira a terra, e tira o planeta. Segue tirando... Tira do universo as estrelas, as galáxias, todas as constelações. Tira o buraco negro, tudo que há no céu. Tira o céu. O que é que fica?

– Um breu; a escuridão.

– Tira o breu e a escuridão. O que é que fica?

– Aí, nada.

– Tira o nada. O que fica?

– Sei lá eu, menina! Vai brincar!

E assim, não raro, me recolhia na impossibilidade da resposta. Em um dado momento, pedi um telescópio de aniversário para observar o céu; na cidadezinha onde cresci, o mais próximo disso, era um artefato encontrado numa revistinha Hermes de utensílios domésticos. A Avon do lar. Todos os dias posicionava o instrumento e ficava horas buscando sabe-se lá o quê, mas que hoje, desconfio, se relacionava com essa pergunta do que fica, do que resta, do que se mantém, do que, apesar de você, haverão outros dias, amanhã.

Mas como continuar, quando tudo se vai?

Existe uma teoria da astrofísica que afirma que o tempo não existe. Este, que nós formulamos a partir das voltas que a Terra dá em torno do Sol seria, meramente, uma resposta à nossa necessidade de organização. Desde Freud a noção de contornos ao aparelho psíquico caminha lado a lado com o terrível temor ao desamparo.

Quanto mais me aproximo da astrofísica, mais o Inconsciente me acontece. Explico: cientistas de universidades mundialmente reconhecidas vêm construindo hipóteses acerca do universo infinito/finito. Afirmam que, em se tratando de matéria, o que conhecemos como universo sem fim, é apenas uma expansão constante dos corpos celestes – tal qual um balão, que quanto mais ar inserimos, maior ele [o balão] vai ficando. Até que exploda.

Vários países se uniram para construção e aquisição de um telescópio chamado James Webb. Trata-se de um telescópio espacial projetado pela NASA, em colaboração com a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Agência Espacial Canadense (CSA) com o intuito de substituir o Telescópio Espacial Hubble. Foram investidos cerca de 10 bilhões de dólares até sua finalização. E no dia 25 de dezembro de 2021 ele foi lançado aos céus na tentativa de alavancar nosso conhecimento sobre a formação do Universo, existência de planetas habitáveis, buracos negros, evolução das galáxias, estrelas e exoplanetas, uma vez que o James, por funcionar no infravermelho, alcança distâncias antes jamais possíveis. Matematicamente falando, viagens no tempo são possíveis, e estes mesmos cientistas apostam em alcançar o começo de tudo – como o sabemos até então – através de uma fotografia do Big Bang. Se conseguirão, ou não, só o tempo – esse nosso, cronológico – irá dizer...

Agora, observem: um ano-luz é a distância que a luz percorre no vácuo por um ano, ou seja, 9,46 trilhões de km. Em termos práticos, ele fotografou, recentemente, o que só seríamos capazes de alcançar daqui 13 bilhões de anos. Uma viagem no tempo, capturada pela fotografia. Essa fotografia, aliás, com seus astros, galáxias, estrelas, emoldurou 50 mil pontos de luz, que corresponde, a olho nu, mirar um grão de areia – ou seja, o Universo para além de um mistério, se apresenta como uma impossibilidade de mapeamento. Assim, o centro que lhe atribuímos também não é. Einstein nos esbofeteou ao investigar a relatividade do tempo; a ciência atual nos nocauteia ao retirar as bases da crença de que o Sol é o centro. Talvez ele até seja, mas o é em comparação aos planetas que em sua volta vagueiam. O universo, enfim, é muito mais que o Sol e nossa terrinha rodopiando uma valsa constante ao seu redor.

O inconsciente, para mim, é isso: a possibilidade de anular a noção de tempo cronologicamente sistematizado; a vastidão de um funcionamento que talvez acessemos um grão de areia; a inexistência do âmago, senão que trilhões de conteúdos perambulando em algum lugar que ninguém pôde localizar, nem em tamanho ou, sequer, geografia. O inconsciente, afinal, não tem começo, meio ou fim. Ele apenas está aí, a cada dia mais, acontecendo à revelia da nossa necessidade de contorná-lo. Freud foi o próprio telescópio, capturando fragmentos de sua imensidão – o que nos faz pensar que seríamos nós, os projéteis capazes de o arrebatar? O Big Bang freudiano é todo ato falho, sonho, lapso, a cada vez que se apresenta. Inconsciente é criação. O universo, também.

Os planetas são; os mundos, nem tanto. Que os planetas não falam, nos disse Lacan (2010, p. 319). Acrescento que o mundo ao menos balbucia, porque é criação humana. É concebido historicamente. E a história é tudo “o que acontece, uma sequência de fatos, das mudanças, das revoluções, das acumulações que tecem o devir das sociedades. Mas é também o relato que se faz de tudo isso” (Perrot, 2019, p. 16). História é relato. E os relatos, por quem são escritos?

O mundo que habitamos também não é unívoco. Há mundos dentro do mundo, e no nosso mundinho miúdo, ao adentrarmos no Percurso[1], após uma aula presencial, napandemia do Covid-19. Dali por diante, a expectativa dos encontros foi substituída pela apreensão de um não saber sobre a possibilidade de seguir. Os seminários, interrompidos; a presença física, proibida.

Mas como continuar, quando tudo se vai?

Zeca dá pistas:

Quando tudo parece que está perdido

É nessa hora que você vê

Quem é parceiro, quem é bom amigo

Quem tá contigo quem é de correr

A sua mão me tirou do abismo

O seu axé evitou o meu fim[2]

São as transferências de trabalho, a possibilidade de habitar um céu acompanhado, e de alguma maneira ser ponto, parte de um desenho. Asterismo é como chamam as estrelas que, por sua posição, traçam um desenho. Asterismo é um outro nome para transferência.

Sonho:

Há uma montanha de areia; dunas e dunas que não se acabam mais. De onde estou, posso avistar uma espécie de rio. Está abaixo da montanha de areia. Dentro da água corpos mortos boiam; carros vagueiam. Preciso pular na água; mas é importante que eu saiba dobrar a cabeça para que o pescoço não quebre. O rio não é fundo. Aí eu pulo, mergulho. No sonho, aprendi a dobrar o corpo para não pular direto na morte – embora saiba que ela está sempre aí.

Acordo passados quase três anos. O Percurso sustentou-se on-line. Agora, vacinados, retomaríamos, finalmente, as aulas presenciais. O ciclo seguinte, atendimento clínico na instituição. A impossibilidade, sermos uma turma de 22 pessoas, quando a capacidade de atendimentos era de 15. Era preciso que, ou se voluntariassem os 7 que ficariam para mais tarde, ou um sorteio seria realizado, afim de definir quem seriam esses afortunados. Não me pareceu, em momento algum, ser um problema ficar para depois. Fui voluntária. E várias outras foram sendo. Talvez o curioso tenha acontecido num só depois, quando percebemos que de uma turma de 22 pessoas, sendo 9 mulheres e 13 homens, 7 mulheres concordaram em esperar. Nos tornamos a casa das sete mulheres.

Outro momento de um mundinho que parece congelar. De um percurso que é interrompido. De um realinhamento dos planetas. De uma viagem pré-definida cuja trajetória precisa ser recalculada.

Mas como continuar, quando tudo se vai?

Nas palavras de Caetano pela voz de Gal, encontramos: “Por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha. Por isso é que eu canto, não posso parar, por isso essa voz tamanha”[3].

É preciso abraçar o hiato. O tal objeto a, de que tanto se escuta falar, sem jamais poder nomeá-lo. Meu demônio de pequena, afinal, se se tira tudo, o que é que fica? E assim, pelo período de um ano, formulamos nosso cartel. O tema, angústia.

Sonho:

Estou num planeta inabitado; quilômetros e mais quilômetros de uma areia cinza. Algumas crateras, nenhum vento. O silêncio, absoluto. Começo a escavar com as mãos; cravo as unhas na terra inóspita tentando encontrar algo. Nada. Continuo cavando, até que acordo um ano depois, para, enfim, retomar o Percurso e realizar os atendimentos presenciais na instituição.

Das sete mulheres que ficaram para depois, apenas quatro permaneceram. Eu, Natália, Tanise e Raquel. E então, após uma ou duas reuniões clínicas, Raquel morre. Assim, desse jeito abrupto e brutal. E rapidamente se organizam homenagens e sem pausas prosseguem os dias. O tempo tem essa mania autoritária de passar.

Mas como continuar, quando tudo se vai?

Chico e Milton arriscam:

O que será que me dá

Que me bole por dentro, será que me dá

Que brota à flor da pele, será que me dá

E que me sobe às faces e me faz corar

E que me salta aos olhos a me atraiçoar

E que me aperta o peito e me faz confessar

O que não tem mais jeito de dissimular

E que nem é direito ninguém recusar[4]

É a causa analítica. A própria ética da psicanálise. Seguir adiante, quando algo do Real se impõe. E voltar à sede, mantendo alguma sede, embora de luto.

Sonho:

Todas as pessoas do mundo viraram estátuas; de tempos em tempos, esfarelam.

Acordo dias depois, e dessa vez o nosso estado é inundado pela maior enchente da sua história. Sobra água invadindo as casas, falta água para beber. A sede novamente se fecha, voltamos para o virtual e para a sensação, já conhecida, de desamparo.

Mas como continuar, quando tudo se vai?

Caetano sussurra:

Onde queres revólver, sou coqueiro

E onde queres dinheiro, sou paixão

Onde queres descanso, sou desejo

E onde sou só desejo, queres não

E onde não queres nada, nada falta

E onde voas bem alta, eu sou o chão

E onde pisas o chão, minha alma salta

E ganha liberdade na amplidão[5]

É o desejo. A falta que move em direção à miragem do desejar.

Sonho:

Em frente à APPOA, o desenho de uma linha do tempo. Em cima da linha está escrito percurso. Tem quatro marcações temporais nessa linha: pandemia, falta de espaço, morte da Raquel e enchente. Do sonho preservo o pensamento súbito de quando vi aquela linha do tempo: “esse percurso tem que acabar”. Que é diferente de eu acabar um percurso. Não pode ter fim o que se sustenta pela falta; esta coisinha que funda o desejo.

– Tira do planeta a possibilidade dos encontros presenciais. O que fica?

– Solidão em células; pessoas nas telas.

– Tira o espaço para todos, diminui o número de cadeiras. O que é que fica?

– Pequenos grupos desconexos.

– Tira uma pessoa do pequeno grupo formado. O que é que fica?

– As três Marias.

– Tira as três Marias, inunda a cidade. O que fica?

– Depois de tudo, o que resta é mais um começar.

Marias de trás para frente é “saíram”. E estamos, a cada vez, voltando.

Acordo na UFRGS, escutando várias mulheres falarem sobre escrita e psicanálise. Então, me encolho pequena, quase entregue aos pensamentos e ensurdecendo, até que: “Lacan diz que o órgão mais importante é o ouvido”. Olvido, escuto no sotaque caruaruense de Ayanne Sobral. Talvez a orelha de fronteira tenha forçado o apelo ao esquecimento. O órgão mais importante é o esquecido.

E força-se o esquecimento para sustentar o animalesco. Insisto em lembrar. Desse tempo em que não tentamos ser telescópio bilionário, senão que 4 corpos orbitando em volta de uma aposta sem recuar: a tal psicanálise. E da Raquel, trago o último pedido escrito pouquíssimos dias antes de virar estrelinha, já interna no hospital: “adoraria saber como foi o cartel, ontem”.

Afinal, quem sabe seja isso que fica, quando tudo se vai.

Referências:

FORÇA ESTRANHA. Intérprete: Gal Costa. Compositor: Caetano Veloso. In: Gal tropical. Intérprete: Gal Costa. Universal Music Ltda., Warner Chappell Music, 1979. 3:34.

LACAN, Jacques. O seminário. Livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

MONTERO, Rosa (1951). A louca da casa. São Paulo: Todavia, 2024.

O que será (a flor da pele). Intérprete: Chico Buarque, Milton Nascimento. Compositor: Chico Buarque. In: Geraes. Intérprete: Milton Nascimento. EMI Music Brasil Ltda., 1976. 4:07.

O QUERERES. Intérprete: Caetano Veloso, Ricardo Cristaldi. Compositor: Caetano Veloso. In: Caetanear. Intérprete: Caetano Veloso. Universal Music Ltda., 1985. 2:55.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. Editora Contexto: São Paulo, 2019.

QUANDO a gira girou. Intérprete: Zeca Pagodinho. Compositor: Claudinho Guimaraes e Serginho Meriti. In: Uma prova de amor ao vivo. Intérprete: Zeca Pagodinho. Universal Music International, 2009. 4:36.

 

[1] Percurso em Psicanálise da APPOA, turma XVII, da qual a autora faz parte.

[2] Quando a gira girou.

[3] Força estranha.

[4] O que será (a flor da pele).

[5] O quereres.

Jéssica Pozzebon é psicóloga, psicanalista e escritora. Especialista em Políticas Públicas de Saúde Mental e Assistência Social (PUCRS). Participou do Percurso em Psicanálise da turma XVII na APPOA, instituição onde ainda sustenta seus estudos e transferência de trabalho. Autora de Antes de ser pequena, seu romance de estreia, será publicado no segundo semestre de 2025 pela editora Urutau. E-mail: jessicapozzebon@gmail.com





junho de 2025 - Correio APPOA