Relendo Freud: fenômenos de massa


288 - junho de 2019



Temática

Hipnose e pulsão de morte na psicologia das massas

Fernando Hartmann

A referência de um discurso é aquilo que ele confessa querer dominar, querer amestrar (…) a intrusão (da psicanálise) na política só pode ser feita reconhecendo-se que não há discurso - e não apenas o analítico - que não seja do gozo, pelo menos quando dele se espera o trabalho da verdade.(LACAN, O avesso da psicanálise)

No capítulo intitulado “Sugestão e Libido” do texto “Psicologia das massas e análise do eu”, Freud retoma seu encontro com Bernheim em 1889, no tempo em que ainda trabalhava com a hipnose. Freud (1921/1987a, p.114) diz neste momento já sentir uma hostilidade surda contra a tirania da sugestão:

Quando um paciente que não se mostrava dócil, enfrentava o grito: “Mas o que está fazendo? Vous vous contre-suggestionnez!”, eu dizia a mim mesmo que isso era uma injustiça evidente e um ato de violência, porque o homem certamente tinha direito a contra-sugestões, se estavam tentando dominá-lo com sugestões. Mais tarde, minha resistência tomou o sentido de protestar contra a opinião de que a própria sugestão, que explicava tudo, era isenta de explicação. Pensando nisso eu repetia a velha adivinhação: “Cristóvão carregava Cristo; Cristo carregava o mundo inteiro; onde, então, Cristóvão apoiava o pé?”

Nós encontramos neste escrito uma definição do porque Freud se afastou da hipnose, buscando posteriormente uma explicação para a sugestão até a criação do que ele chamaria de psicanálise. Certamente, como bom filologista que era, sabia bem que Cristovão significa “o transportador do Cristo”, “ o que conduz o Cristo”. Tem origem no grego Christophóros, formado pelos elementos Christós, que quer dizer “Cristo” e phorós, que significa “portador”. A história de Cristóvão, obviamente, não é sem fundamento para falarmos de sugestão. Conta que Cristóvão era um gigante muito forte, um grande guerreiro que queria servir ao maior de todos os reis, então faz uma peregrinação de reinado em reinado e vai trocando de mestre de acordo com a potência deste, acontece que nas batalhas um rei perdia para outro e assim seguia Cristóvão até servir aquele que ele achou ser o rei mais poderoso de todos. Mas no meio de uma grande batalha ele viu este rei, todo poderoso, tremer de medo diante da morte. Cristovão então pensa que este que ele achava ser o mais poderoso de todos também não era assim tão forte, e, desiludido, decide abandonar este rei. Como era grande, forte e precisava ocupar seu tempo, passou a conduzir as pessoas, nas suas costas, de uma margem a outra em um rio. Um certo dia, em que ele havia transportado muitas pessoas nas suas costas, já cansado, ele vai transportar o menino Jesus Cristo de uma margem a outra, ele então diz ao menino que estava tão cansado que parecia estar carregando o mundo nas costas, e o menino diz, não é o mundo, mas o senhor do mundo ; então a citação de Freud: “Cristóvão carregava Cristo; Cristo carregava o mundo inteiro; onde, então, Cristóvão apoiava o pé?”

Interessante Freud lançar mão de um certo paradoxo lógico como este, se carrego o mundo nas costas onde vou colocar os pés, para falar das suas dificuldades ao longo de mais de trinta anos de trabalho envolto com o tema da sugestão. Em “Além do princípio do prazer”, texto publicado um ano antes de “Psicologia das massas e análise do eu”, ele retoma o caminho trilhado desde a hipnose, passando pela técnica interpretativa e à comunicação ao paciente do material inconsciente descoberto, depois passa para a análise das resistências, quando o paciente resistia, e o analista, pela influência - “sugestão funcionando como transferência”, nos diz Freud (1920/1987b, p.31) -, obrigava este a abandonar suas resistências. Mas diz logo que isso não funcionava, que “o paciente continuava repetindo experiências do passado como se fossem presentes e que isso acontecia invariavelmente na esfera da transferência” (1920/1987b, p.32). Segundo Freud, quando as coisas atingem esta etapa, pode-se dizer que a neurose foi então substituída pela neurose de transferência. Freud, na continuidade deste texto, perguntando-se sobre a compulsão à repetição, vai dizer que os pacientes repetem na transferência todas as situações indesejadas e emoções penosas, revivendo-as com a maior engenhosidade. O que ele refere neste texto é que a psicanálise revela, nos fenômenos da transferência, o que acontece na vida de todos, nas mais variadas formas de repetições - por exemplo, onde o benfeitor prova seguidamente o amargor da ingratidão, ou aquele que repetidas vezes coloca outro na posição de autoridade e depois subverte esta autoridade por outra nova, ou o amante cujos casos amorosos atravessam as mesmas fases e chegam à mesma conclusão.

Podemos traçar uma linha temporal na obra freudiana que vai da hipnose, passando pela sugestão, até chegar à transferência. Porém, em “Psicologia das massas e análise do eu", Freud relaciona a hipnose à formação de grupos e ao estado de enamoramento, buscando pontos de convergência. Poderíamos supor em um primeiro momento que se tratam de categorias muito diversas e difíceis de relacionar, mas Freud o faz de uma forma surpreendente. Ele vai centrar a sua análise na aproximação do objeto ao ideal do Eu, até sua substituição: “um grupo é um certo número de indivíduos que colocaram um só e mesmo objeto no lugar do ideal do Eu e, consequentemente, se identificaram uns com os outros em seu eu” (Freud, 1921/1987a, p.147). Um dos pontos de convergência é a idealização, seja do objeto amado, do hipnotizador, do líder do grupo ou da ideia que unifica o grupo. Neste mesmo texto, Freud escreve que a hipnose é uma formação de grupo de dois membros; assim, segundo ele, “a hipnose não constitui um bom objeto para a comparação com uma formação de grupo, porque é mais verdadeiro dizer que ela é idêntica a essa última” (p. 145). Mas, mesmo levando em consideração a constituição libidinal dos grupos, ele não chega a uma conclusão definitiva pela via da libido e da identificação e acrescenta que “a hipnose contém um elemento adicional de paralisia derivado da relação entre alguém com poderes superiores e alguém que está sem poder e desamparado” (Freud, 1921/1987a, p.147).

Ao retornarmos ao texto publicado anteriormente, “Além do princípio do prazer”, nós encontramos o conceito de pulsão de morte como além do princípio do prazer, sendo o que joga o sujeito na repetição, o que Lacan vai posteriormente relacionar ao conceito de gozo. Em “Psicologia das massas e análise do eu”, Freud afirma que é a libido, o amor que une as massas; mas, no texto anterior, o que comandaria o sujeito para além do prazer seria a pulsão de morte e sua possível derivação para as relações de poder. Temos então se delineando na obra freudiana duas grandes forças que trabalham na formação das massas: de um lado, o amor, a pulsão de vida, e, de outro, Thanatos, a pulsão de morte. Freud chega mesmo a conclusão de que o ódio também pode ser uma força unificadora. Estas duas forças, pulsão de vida e pulsão de morte, estariam ativas também na transferência? Uma das possibilidades de entramos nesta questão é pelo conceito de repetição.

Quando Freud traz o exemplo do Ford-da, em “Além do princípio do prazer”, o que ele mostra é seu netinho lidando com a angústia de separação da mãe através de uma compulsão à repetição. Ele se pergunta qual o prazer que o menino tem ali. O prazer de dominação? Passar da passividade para a atividade com relação ao objeto? Repete algumas vezes que seria um outro tipo de prazer, mas não chega a uma conclusão definitiva e se encaminha para a ideia da pulsão de morte. A repetição neste caso é uma forma de alívio da angústia. Esta conclusão podemos tirar do Ford-da, mas vejamos que para repetir precisamos da linguagem, ela é a própria condição da repetição: a criança diz: ó, ó, ó, ó, ó, e, depois, a, a, a, a, a. De fato não falamos sem repetir sons, letras, palavras. Isso quer dizer que através da linguagem construímos realidades, retirando, recortando da realidade a angústia, proporcionando assim um domínio sobre a realidade. Não é por acaso que esta realidade montada a partir deste recorte tem a aparência homogênea, onde as coisas funcionam, onde tudo parece ter uma certa organização que podemos chamar de religiosa, científica e até mesmo artística - para seguir Freud no “Mal-estar na civilização”. A realidade não nos parece um caos. Quando isso acontece, de a realidade parecer um caos, algo sem sentido, sem lei, vem a angústia. Então, o que fazemos para que a realidade não nos pareça um caos, quer dizer, algo que não controlamos, quando parece que estamos completamente sujeitos ao acaso? Nós recortamos da realidade a angústia. Mas como nóso fazemos? Podemos voltar aqui ao netinho de Freud, ao modo como ele lida com a angústia de separação da mãe, criando um jogo, via linguagem, de presença e ausência com o carretel que representa a mãe, quando joga o carretel, ó, ó, ó, ó, e quando puxa o carretel de volta, a, a, a, a. Através da linguagem ele consegue criar um sistema de repetição onde passa a controlar a sua realidade e obtém uma satisfação com este jogo, com esta repetição. Então, para nos livrarmos do acaso, do caos, das forças da natureza, da finitude e das relações adversas com outros humanos (para nos mantermos na referência ao texto “Mal-estar da civilização”), nós construímos sistemas de repetição, criamos o calendário, os dias da semana, os meses, os anos, contamos as coisas. Ninguém sabe se vai estar vivo daqui a uma hora, mas sabe que vai haver um meio-dia, que no final da semana haverá o Domingo, que houve a sexta-feira. Assim nós criamos a repetição para nos defender do acaso. Pois o acaso é isso, a gente não sabe quando as coisas vão acontecer, quando vamos morrer, não temos controle do acaso, a repetição sugere um controle. Através do discurso nós constituímos sistemas de domínio e poder sobre a natureza, sobre a realidade, enfim, sobre os outros humanos.

Porém, a angústia, o real, não cessa de não se escrever, e este retorno acontece de várias formas. Há pessoas que quando ficam angustiadas comem, mas não comem qualquer coisa, ou vão ao shopping e compram, consomem, ou bebem, se drogam, ou fazem qualquer coisa automática, repetitiva. Enfim, fazem sintomas que carregam repetições e, é claro, os apetites transformados pela linguagem mudam muito os limites, e assim comemos até estourar, ou não comemos nada, ou dizemos que comemos quando fazemos sexo. Freud apontava para a difícil tarefa de restringir as pulsões e o quanto isso provocava o mal-estar na civilização, mas ele também chama a atenção para algo ainda mais ameaçador, “o perigo de um estado de coisas que poderia ser chamado de miséria psicológica dos grupos” (Freud, 1930/1987c, p.138), juntamente com toda complexidade das demandas de identificação e reconhecimento presente nas comunidades humanas.

Será que atualmente ainda poderíamos seguir os passos de Freud relativos à formação de massas psicológicas? Bernard Stiegler, em seu livro La télécratie contre la démocratie, diz que hoje nós temos outros tipos de massas artificiais, diferentes daquelas abordadas por Freud em “Psicologia das massas e análise do eu”, como o Exército e a Igreja. Hoje temos massas organizadas através de dispositivos como a televisão, smartphones, redes sociais. Estamos vivenciando isso mais claramente desde a votação da saída da Inglaterra da comunidade Europeia, da eleição de Trump nos Estados Unidos, da eleição de Bolsonaro no Brasil. Segundo Bernard Mandeville (2010/1714), toda sabedoria dos políticos é fazer jogar as paixões de uns contra os outros, é o seu único material. E como isso se faz possível tão facilmente hoje? Segundo Stiegler (2008, p.174):

As indústrias de programas e as marcas que os financiam produzem uma dissociação porque elas organizam a perda do saber fazer, a perda do saber viver e a perda do saber teórico: elas organizam a forma de toda perda de saber pela dissociação, elas fazem o contrário da organização das escolas, elas desfazem a filiação, os objetos são apresentados sem filiação.(1)

Após essa dissociação, o terreno psíquico fica livre para receber qualquer tipo de sugestão. Este é o mesmo mecanismo da hipnose, onde o sujeito abre mão de decidir e passa a funcionar quase que mecanicamente sugestionado. Se a pulsão de morte - ou o gozo, para Lacan - pode ser entendido como uma forma de alívio da angústia, assim como o sintoma, poderíamos dizer que a formação de massas psicológicas como forma de domínio e poder se constituem a partir da disponibilização de formas de gozo facilmente compartilhadas? Ou seja, seria a pulsão de morte uma forma de alívio da angústia que implica a formação de massas psicológicas facilmente manipuláveis? A crise, o caos, é uma ótima forma de facilitar a dominação, o governo.

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund (1921). "Psicologia de grupo e análise do eu." In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987a. Vol. XVIII.

_______ (1920). "Além do princípio do prazer." In: Obras Completas. Rio de Janeiro, Imago, 1987b. Vol. XVIII.

_______ (1930). "O mal-estar na civilização." In: Obras Completas. Rio de Janeiro, Imago, 1987c. Vol. XXI.

LACAN, Jacques (1969/1970). Seminário XVII: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992.

MANDEVILLE, Bernard (1714). La fable des abeilles. Paris, Librarie J.Vrin, 2010.

STIEGLER, Bernard (2008). La télécratie contre la démocratie. Paris, Flamarion, 2008.

Autor: Fernando Hartmann

 

* Fernando Hartmann é psicanalista - APPOA.

(1) Tradução nossa do texto publicado em francês.