Congresso 2019: eventos preparatórios


292 - outubro de 2019



Temática

Distopia e feminino: uma reflexão sobre a mínima diferença na contemporaneidade

Juliana Gomes

Texto apresentado no evento preparatório ao Congresso da APPOA realizado em Goiânia em 13/09/2019.

A proposta para escrever este texto pensando a “Psicanálise e o espírito do nosso tempo” se aliou ao meu desejo em falar sobre o lugar da mulher hoje, pensando-o sob a questão do enigma do feminino pautado pela mínima diferença entre homens e mulheres.

Freud [1930(1929)], em O mal-estar na civilização, nos apresenta o fenômeno do narcisismo das pequenas diferenças. Apesar de não se estender muito sobre esse conceito, Freud nos conta que esse é um fenômeno que surge quando aparecem grandes e constantes rivalidades em comunidades com territórios próximos. Além da proximidade, eles também apresentam alguns aspectos semelhantes, como, por exemplo, os alemães do norte e os alemães do sul, os ingleses e os escoceses, e assim por diante.

A psicanalista Maria Rita Kehl, em seu livro A mínima diferença (1996), toma emprestado o termo narcisismo das pequenas diferenças para discorrer sobre as pequenas diferenças entre homens e mulheres. Nesse trabalho ela afirma o seguinte: “é quando a diferença é pequena, e não quando é acentuada, que o outro torna-se alvo de intolerância. É quando os territórios que deveriam estar bem apartados tornam-se próximos demais, quando as insígnias da diferença começam a se desfocar, que a intolerância é convocada a restabelecer uma discriminação, no duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades ficariam muito ameaçadas” (P. 26).

Proponho, neste artigo, pensar a questão do lugar de instrumentalização que muitas vezes é designado à mulher. Evidentemente não é só a mulher que ocupa esse lugar em nossa cultura, mas o que irei discutir aqui é o lugar de instrumentalização atribuído a ela. Na clínica, o que tem sido observado no discurso de algumas mulheres são os efeitos dessa “mínima diferença” no que diz respeito ao lugar em que elas estão sendo colocadas por seus parceiros. Ou, ainda, quando elas mesmas percebem estar corroborando para se manter nesse lugar. Se a mulher freudiana era compreendida como aquela que se tornava mulher após ter passado um período em que essa “mínima diferença” não era reconhecida e, reconhecendo a falta inscrita em seu corpo como a castração que marca a sexualidade feminina e seu modo de gozar, para Lacan a mulher não encontra um significante que a determine. Seu lugar está, portanto, no discurso. Mas a quantas anda esse discurso?

O livro de Margaret Atwood O conto da Aia narra uma história que se passa no século XXI e é considerada pela autora uma ficção especulativa, pois não se trata de uma história que possa vir a acontecer, mas sim de uma que acontece na nossa frente todos os dias, haja vista que a autora inspirou-se em notícias de jornais. Ou, como ela gosta de afirmar, tudo ali já aconteceu em algum lugar, em alguma época.

O livro de Atwood, escrito em 1985 e adaptado em 2017 para uma série de TV, fez um retumbante sucesso, muito pelo fato de a história parecer premonitória, dada a semelhança com alguns acontecimentos que nos chegam pelos jornais e pelas redes sociais hoje. Um dos temas principais do livro é o lugar instrumentalizado atribuído à mulher em uma sociedade distópica.

O livro conta a história da República de Gilead, onde a liberdade das mulheres havia sido abolida. A personagem principal, Offred, está presa. Antes da prisão, ela era June e possuía uma vida comum – estudava, trabalhava, tinha amigos, era casada, tinha uma filha e tentava conciliar tarefas domésticas, maternidade, profissão e vida pessoal. Contudo, de um dia para o outro, tudo mudou. Após uma série de atentados contra o governo dos Estados Unidos, subiu ao poder um regime teocrático, conservador e puritano, liderado por homens que tiravam das mulheres o direito de ler, trabalhar, votar e administrar suas finanças e bens. Tudo o que elas tinham passava a ser propriedade dos homens. Concomitante a isso, uma contaminação reduziu ao mínimo as taxas de fertilidade da população. Com isso, mulheres férteis eram selecionadas para assegurar a reprodução da espécie. Elas eram prisioneiras nas casas dos Comandantes, homens casados com mulheres inférteis que, apesar de terem uma posição privilegiada nessa cultura, eram, como as aias, reféns desse sistema.

Meu interesse é discutir esse lugar de instrumentalização no qual a mulher é colocada, muito bem ilustrado pelo enredo desse livro, mas também bastante recorrente em nossa cultura e em casos clínicos. Por que a mulher ainda, em certas situações, é mantida nesse lugar? O que a psicanálise tem a nos dizer sobre isso? Como podemos entender esse lugar em nossa cultura?

Nos anos 30, Freud retoma o tema da sexualidade feminina que ele havia trabalhado anteriormente em termos de “inveja do pênis” e complexo de castração na teoria do Édipo. Dessa vez ele prepara um novo conjunto de conferências de introdução à psicanálise que ele gostaria que fosse uma continuação das conferências introdutórias proferidas entre 1915 e 1917.

Entre elas está a conferência A Feminilidade, escrita por ele em 1933. Nela há uma importante reformulação teórica, em que Freud afirma que só existe uma libido. Assim, esta não pode ser considerada nem masculina nem feminina, mas está a serviço tanto da função masculina, quanto da feminina.

Nesse texto Freud afirma que aquilo que constitui a masculinidade ou a feminilidade é uma característica desconhecida, que a anatomia não consegue apreender (Freud, 1933/ 2018, p. 316). Considera que os órgãos, as formas e os tecidos corporais, tanto do homem quanto da mulher, servem exclusivamente às funções sexuais, e suas influências no gênero são inconstantes. Se temos algum destino, é – como afirma Lacan, em seu Seminário 4 A relação de objeto – a linguagem.No entanto, as práticas sociais e culturais nos designam destinos diferenciados para homens e mulheres.

A diferença é mínima, pois depende do modo como os sujeitos se inscrevem na organização fálica do desejo, o que não necessariamente destina homens e mulheres a formas pré-definidas de se relacionar com a sexualidade.

Freud (1933/2018) nos diz que as partes do aparelho sexual masculino são encontradas no corpo da mulher, ainda que atrofiadas, e o mesmo ocorre no caso contrário. Devido a isso, a ciência vê nessa ocorrência o indício de uma bipartição da sexualidade, uma bissexualidade, como se o indivíduo não fosse nem homem nem mulher, e sim ambos a cada vez, só que com mais de um do que de outro. Vocês serão, então, solicitados a se familiarizar com a ideia de que a proporção a partir da qual o masculino e o feminino se mesclam no indivíduo sofre oscilações extraordinárias (p. 315).

Nesse texto, Freud ainda nos desaconselha a relacionar a passividade à feminilidade e a atividade à masculinidade. Afinal é necessária uma grande porção de atividade para que uma meta passiva se estabeleça. Tanto mulheres quanto homens dosam suas passividades e atividades para que possam viver entre iguais.

Freud acreditava que a feminilidade, assim como a diferença entre homens e mulheres, era construída a partir da cultura. Todavia, ele manteve até o fim da vida o entendimento de que o feminino era algo misterioso e enigmático – “o continente negro” –, e lançou a pergunta “afinal, o que querem as mulheres?”.

Não se trata aqui de reivindicar uma igualdade, mas de tensionar a questão da “mínima diferença”. Há diferenças fundamentais entre homens e mulheres; no entanto, o fato de essa diferença ser mínima tem provocado a cada dia mais intolerância e mais rivalidade do que um avanço nesse diálogo.

Voltando ao “O Mal-estar na Civilização” (1929-1930) e ao “narcisismo das pequenas diferenças”, Freud nos diz que, ao mesmo tempo em que nossa cultura exige o recalque das tendências destrutivas dos sujeitos de maneira que possibilite o convívio na civilização, o narcisismo tolera mal o convívio com o diferente, e suporta menos ainda o confronto com o minimamente diferente. Isso porque este ameaça tanto o campo da satisfação das necessidades, quanto o das identificações.

Ora, se a sexuação humana ocorre pelo atravessamento da cultura, é a partir da castração que o sujeito terá uma indicação de sua pertença a um só sexo. E disso o simbólico terá que dar conta, pois é a castração que institui a diferença ou, como nos dizia Lacan em seu seminário 3 (1955-1956/1988), que o sujeito encontra o seu lugar num aparelho simbólico pré-formado que instaura a lei na sexualidade. E essa lei não permite mais ao sujeito realizar sua sexualidade senão no plano simbólico” (p. 195).

Se o feminino não é definido, portanto, pela biologia e se o masculino é definido pelo que é fálico, o que define a mulher? Qual a relação entre esse mistério que o feminino representa e o lugar de objeto que ele acaba assumindo na cultura? Retomando o enredo do livro O conto da aia, de onde vem essa prática que, ao longo dos tempos, insiste em se repetir:numa cultura opressora faz-se necessário colocar a mulher no lugar instrumentalizado?

Existem inúmeras tentativas de se representar a mulher, mas no registro simbólico, só existe um significante para tratar da diferença sexual: o falo. É isso que leva Lacan (em 1972/73 no Seminário 20: mais, ainda) a formular o aforisma A mulher não existe. Como não temos no inconsciente o que a defina, surgem inúmeros nomes na tentativa de representá-la. Lacan, nesse mesmo Seminário 20, irá definir a mulher em termos de não-toda submetida à função fálica.

Lacan (1972/1973) irá, nesse sentido, propor duas vias para o gozo feminino: a advinda da posição de objeto causa de desejo, isto é, como máscara, semblante de objeto a; e a via do significante da falta do Outro.

Na visão distópica de “O conto da Aia”, onde todos os direitos das mulheres foram cerceados, as insígnias que identificam para nossa cultura o que é ser mulher são proibidas. Os nomes das aias são uma composição da palavra off, que faz referência a pertencimento, seguido pelo nome de seu Comandante. Já as esposas são chamadas pelo sobrenome de seus maridos. Acontece então que Offred – anteriormente chamada June – é chamada para ir ao gabinete de seu comandante à noite e sozinha, o que é proibido em Gilead, sob pena de morte caso seja descoberto. Esse chamado dentro dessas condições abre uma fenda para a personagem. O que a leva a ter o seguinte pensamento: Mas deve haver alguma coisa que ele [o Comandante] quer de mim. Querer é ter uma fraqueza. É essa fraqueza, seja lá qual for, que me atrai. É como uma pequena rachadura numa parede, que antes, até este momento, era impenetrável. Se encostar meu olho nela, na fraqueza dele, pode ser que possa ver meu caminho se abrir. Quero saber o que ele quer.” (Atwood, 2017, p. 166).

Para concluir, deixamos algumas perguntas que se abrem a partir das considerações de Freud e de Lacan sobre a mulher: Será que tanta repressão à mulher se deriva de um temor? Estaria esse temor ligado ao lugar de instrumentalização do feminino? A mulher, em sendo castrada, confrontaria os homens com a possibilidade de perder, ao menos imaginariamente, o falo?

No Seminário 3 Lacan já afirmava: “Tornar-se uma mulher e interrogar-se sobre o que é uma mulher são duas coisas essencialmente diferentes. Eu direi muito mais – é porque não nos tornamos assim que nos interrogamos, e até certo ponto, interrogar-se é o contrário de tornar-se. A metafísica de sua posição é o subterfúgio imposto à realização subjetiva na mulher. Sua posição é essencialmente problemática, e até um certo ponto inassimilável” (Lacan, 1955-1956/1981, p. 204).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ATWOOD, M. O Conto da Aia, Editora Rocco (1985)

FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XXI, Editora IMAGO (1996 [1930 (1929)].

FREUD, S. A Feminilidade. IN: Amor, Sexualidade, Feminilidade. Obras Incompletas de Sigmund Freud. Editora Autêntica. ( 2008/ 1933 )

KEHL, M. R. A Mínima Diferença. Editora IMAGO ( 1996 ).

LACAN, J. Seminário 3: As Psicoses. Editora Zahar (1955-1956/1988)

LACAN, J. Seminário 4: A Relação de Objeto. Editora Zahar (1957 / 1988)

LACAN, J. Seminário 20: Mais Ainda. Editora Zahar (1972-73/ 1988)

Autor: Juliana Gomes

 

Juliana Gomes é psicanalista