Há muito tempo os estudos feministas endereçam críticas à psicanálise, apontando que a teoria seria falocêntrica e misógina. Posteriormente, os estudos queer engrossaram o caldo. No contexto brasileiro, apenas na última década é que um debate consistente passou a ser desenvolvido entre nosso campo e “seus críticos” – isso se tratando do meio acadêmico. Nas instituições, por vezes, há certa resistência em relação a esses debates. Também temos registros históricos de violências promovidas institucionalmente, e que são importantes de serem lembradas: exclusão de candidatos homossexuais para formação; homossexualidade e transexualidade rapidamente lidas como perversões ou psicoses; e ainda, manifestações públicas (exemplo francês do final dos anos 1990) de psicanalistas reconhecidos militando contra a união e adoção de pessoas do mesmo sexo [1].
Freud marcou que o Eu não é o senhor da própria casa, compondo assim uma das três feridas narcísicas da humanidade (juntamente com a revelação de que não somos o centro do universo e que não nos originamos da mão divina). Aqui, nos arriscamos a questionar se as teorias queer não seriam as produtoras de uma nova ferida, ao tirar a cisheteronormatividade do centro, ou seja, fazendo com que, ao deslocar-se da norma, deixemos de tomar o queer (termo de difícil tradução direta ao português, mas que carrega o tom do estranho, do bizarro) como sempre o outro, o não incluído, o desviante. Isso traz consequências teóricas e clínicas importantes.
Ainda, é importante lembrar: sabemos bem da importância de lidar com o estranho, o infamiliar. Assim, esse debate queer/estranho parece carregar algo de bastante familiar e, logo, de potência a ser debatida institucionalmente.
A partir de textos de colegas, vemos a tensão entre campos aparentemente heterogêneos, mas em diálogo, e como isso opera hoje em nossa prática e transmissão.
Neste número, também apresentamos uma entrevista realizada com o psicanalista Pedro Ambra, que trata justamente do debate sobre gênero e teorias queer na contemporaneidade, bem como dos modos de leitura que realizamos sobre a teoria psicanalítica e como isso reverbera na formação do psicanalista. Na seção Testemunhos, contamos com o texto Caramelo: a esperança no telhado, de Edson Luiz André de Sousa e em Debates, o texto O destino do desespero, de Vinícius Dutra.
Boas leituras!
[1] Ver: KVELLER, D. B.; CAVALHEIRO, R.; TIETBOEHL, L. Infâncias, teorias queer, psicanálises: para além do princípio do progresso e da heteronormatividade. Psicol. clin., Rio de Janeiro, v. 33, n. 2, p. 237-255, ago. 2021.
agosto de 2024 - Correio APPOA